quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Pátria amada, Brasília (Escrito por Anne Crystie)


Crédito da imagem: Desconhecido.
O tio Jú vai me desculpar, mas tenho dois bons motivos para odiar Brasília. Alguém vai dizer que prova que eu sorria enquanto alimentava os pombos e mesmo que admirava, boquiaberta, os soldados feito estátuas por todos os lados. Não nego. Mas que meu ódio é genuíno, disto tenho todo o direito (apesar dos desgostos patrocinados pelos três poderes).
Não mais importante que o segundo, pois, o primeiro pretexto logo é por conta da índia que certa feita lá conheci. Uma índia de verdade, dessas que carregam penas coloridas na cabeça. Uma índia nuinha, com o corpo pintado do sol (um biquíni muito estreito, por sinal), de zarabatana na mão e marca de espelhos lusitanos na alma.
Ela não era de lá. E nem fazia parte daquelas caravanas que vinham de muito longe para saldar o presidente (até podia, mas não fazia). A depravada vinha do meio. Sim, todos nós viemos do meio. Mas é que esta habitava as águas que limitam o norte do leste. Nascera naquelas terras de ninguém, por onde os branquinhos cor de leite invadiram a Vera Cruz e onde adotaram para seus navios um porto bem seguro, se é que você me entende.
Depois de Brasília, eu odeio também a índia safada. Muitos anos se passaram, entretanto, digo-lhe que confie de pés juntos que, com todas as capas Veja, ainda não posso acreditar que aquela pelada vestiu-se de luxo. Melou a cara com o próprio sangue. Mal posso recordar-me da máscara que usou aquela puta. E do preço que se vendeu, ó céus, mais baixo que os espelhos e as contas.
Tudo aconteceu em segundos. Eu não pude impedir (e nem sei se queria). Os capatazes correram como lobos quando avistaram aquelas japonesas de couro. Eles rosnavam enfurecidos. “Em terra de burguês, onde cinquenta anos são cinco, não se apresenta negrinha que não se equilibra nas plataformas”. Sabe o que fiz, então? Tirei meu cavalo da chuva. Aceitei calada, feito escravo nos rejeitos de feijoada, o título de “barrada no baile”. E a indiazinha burra, tristinha, desceu dos saltos ao subir neles.
A segunda tacada, por sua vez, traz a imagem da senhora minha mãe. Moça boa, inocente, que se nutria de sonhos a realizar há um tempo e nem por isso deixa de nutrir-se desses hoje, quando já realizados. Minha imaculada mainha e seus vinte e poucos livros de estudo. Agora são diplomas aos montes, pastas empoeiradas de papel couchê, das mais variadas cores, e mãos e braços e pés e pernas que se apoiam e riscam todas as letras, todos os sonhos de novo e de novo (e de ontem, às vezes).
Lá veio outra índia... Só que das falsas, dessa vez. Das sem permissão para usar arco e flecha e que, por assim dizer, não abre mão de todos os exércitos do mundo, rendendo glórias às hierarquias mais sabotadas e marchando, ironicamente, todo mês de independência. Era até bonita, de inglês e Honda Civic. Mas desprovida de humanidade (no sentido humilde da coisa, se me permite a inserção conceitual), provida de capitalismo leão, que tem por poema de cabeceira “Mais vale ter do que ser”.
Ela dizia aos ventos que estava a arregalar os olhos por minha amada mãezinha. Gritava que a surpresa era muita, como se eu não estivesse a ouvir. E ria, desesperadamente, da minha e dos outros inteiros que sonham e realizam tarde porque realizam no seu tempo. Ah, esta pseudo-índia (também safada, como se fosse de família) humilhou-me por demais.  E eu me subordinei. E eu me subordinava. E eu me subordino.
Agora diga, meu tio, com toda a imparcialidade, como se você também, outro safado, não carregasse no peito essa naturalidade pátria: por que diabos enfiaram na cabeça dos brasilienses que as meias-calças que suas mulheres usam no verão são mais dignas de respeito e êxito que os corpos nus, que são e sempre foram a cara do Brasil? Há sequer modos de justificar esse etnocentrismo de duas torres, esse brasiliocentrismo fajuto?
Eis que odeio com toda a minha alma. Aprendi a detestar os cheiros parisienses, os plágios baratos de civilização e boa cultura, os filhos de índio na Lacoste. Até os bichos do MST de lá, daquele cerrado lamaceiro, me causam náusea alguns dias. Não quero saber dos pobres, dos que dormem sob a sombra da Kubitschek. São todos pilantras!
Já não sabe que a emergente mister fugiu até aqui para roubar o resto das vacas, mortas de fome, no meio da caatinga? Pois se não sabe, nem sabe de nada. A baleiona, mais baleia e bolandeira que todos nós batidos, rechaçou, definitivamente, as origens e assumiu de vez o jeito meigo Hobby Wood de existir (como se existissem mortos de sede nessa história!). Agora diga, vá, não carrego lá minhas pedras e não posso pôr em bandeiras minhas razões para detestar esse círcu(lo)?!
É muita pretensão, muita ira, muito saco nas costas. E que há mais gente solta, por aí, vestindo essa pele, eu sei, não preciso que você me diga. Acha que sou alguma besta? Já fui. Agora sou um poço de pecados, de não caber mais furor. Carrego meus dois e bons ensejos para onde for, esfrego na cara dos molequinhos burgueses e não escondo meus pés no chão de ninguém. Não me envergonho de minha vergonha, daquela que sentia. E agora que tenho voz, nem preciso ter explicações. O poder que guardo dispensa quaisquer motivos, meu caro. É isso.
Ah, tenho até um terceiro motivo, mas deste não vou me gabar. Já é tarde! Foi quando fiquei nua, como a índia verdadeira não viciada, para não ter que falsificar minha identidade e CPF. Meu vestido era lindo, linho puro, bem passado. E lá se via os lobos de novo, com suas tocas pesteadas de vestidos de espelho (um mais brega que o outro). Dava não, seu Juca. Os pés que pisam neste chão são os mesmos que permanecem nas havaianas e que hoje, graças ao homenzinho, diriam, chegam à nossa capital gloriosa no mesmo aeroplano que você/vossa excelência.

Sobre dinheiro

Crédito da imagem: Desconhecido.


"Dinheiro! O dinheiro é uma espécie de instinto, uma das características da natureza humana é fazer dinheiro. Não tem nada a ver com o que uma pessoa faça, nem é um jogo. É uma espécie de acidente permanente da nossa própria natureza. Quando se começa, faz-se dinheiro e não se pára mais, até um determinado ponto, é claro."

D. H. Lawrence,
em seu livro O Amante de Lady Chatterley.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Intertexto (Escrito por Bertold Brecht)

Crédito da imagem: Desconhecido.

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei

Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.