sábado, 20 de julho de 2013

Nas margens do Miradouro (Escrito por Anne Crystie)


Crédito da Imagem: Anne Crystie.
"Foi lá, frente à história de amor de Mariá e Avelino, que ouvi o silêncio das pessoas abrindo, acanhadamente, corações ao encanto do teatro."


            A arte é um tanto da magia que nutre a vida. Meio a alguns discursos de desesperança e episódios cada vez mais cotidianos de violência, cabe dizer que, nas últimas semanas, Xique-Xique teve um bom motivo para seguir vivendo: a valorização do teatro.

            Com o espetáculo “No Miradouro, os mistérios de uma serpente”, do Ministério do Teatro, nasceu, às margens de nossa história, a cultura dos auditórios lotados em prol do lazer e do conhecimento. Digo “nasceu” porque penso pela primeira vez ter visto atores xiquexiquenses reconhecidos, merecidamente, como profissionais em potencial.

            É bem verdade que as cortinas já abriram muitos outros atos em nossa cidade. Os desejos e criatividades, fantasiados de esquetes, musicais, etc., dos professores Leone, Zélia Jacobina e Nara Righi, por exemplo, ocupam saudosos lugares em minha memória. Eu mesma, felizmente, já me travesti em alguns palcos! Contudo, “a saga das comadres beiradeiras” me narraram um conto diferente...

            Foi lá, frente à história de amor de Mariá e Avelino, que ouvi o silêncio das pessoas abrindo, acanhadamente, corações ao encanto do teatro. Porque o teatro vir até às pessoas, rir e chorar suas máscaras, no intuito de atrair olhares surpresos e propagar a lida nossa de cada dia, ah, isso o É Vento de Cultura e a Gincana da Primavera não se cansavam de pôr em cartaz. Contudo, quantas vezes nos erguemos a comprar nossas inteiras ou meias antes que elas se esgotassem?

            São vários os conterrâneos que, despreocupadamente, proclamam que nossa terra não tem cultura. Mas quantas lendas do Miradouro não temos nós?! Não me custa nada acreditar que, por vezes, o que inexiste são espaços onde nos dispomos a desligar os celulares, guardar os chicletes para mais tarde e, simplesmente, apreciar, abrir bocas de admiração, reconhecer que o outro é genial e importante demais porque é capaz de arrancar sorrisos ou lágrimas.

            Sei que naquele auditório, perplexa ante aquela belíssima serpente, alguns ringtones que mal educadamente soavam e uma ou duas conversas fora de hora, desrespeitosas com a arte e/ou com o outro, ainda me incomodaram. Só que os aplausos, de pé, ao final, eram como se dissessem bis e as pessoas nas ruas, convidando umas as outras para o próximo espetáculo, gritavam para mim que é bem possível que a era do teatro xiquexiquense tenha renascido, porque a plateia, enfim, nasceu.

            Segundo Freud, o pai da Psicanálise, as obras de arte dão evasão aos sentimentos mais profundos dos artistas, de mesmo modo que afetam o espectador naquilo que o constitui. Viver a arte é superar os limites impostos pela realidade aos nossos desejos, é deixar a vida mais feliz e saber de onde tirar esperanças para recolorir o mundo quando preciso. E eu estive “nas margens do Miradouro” e colhi um pedaço de mim, juntei dois pedaços de nós!

Isso é o teatro se mostrando à nossa cidade novamente, só que, nas coxias do “boi pintado”, controversamente, é a plateia que troca a maquiagem: parece que estamos desenhando caras que, de uma vez por todas, convenceram-se a estimar o teatro. E para as próximas peças, pois, as estrelas somos nós! É necessário que as salas continuem cheias, os artistas sigam vistos e Xique-Xique permaneça viva. Curvemo-nos diante da arte!

Maio de 2013

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