"O machismo, intrínseco a conjuntura atual,
esconde uma lógica que, por vezes, não nos damos conta."
Há dessas coisas no dia-a-dia que nos
inquietam a ponto de sermos intolerantes diante de ações e/ou atores. Nas
últimas semanas, pois, tenho me atentado facilmente para aquilo que dentro das
grandes ou pequenas lutas sociais etiquetam de “desigualdade de gênero” – vulgo
machismo.
Desde muito jovens ou, por que não
dizer, desde o período pré-natal, somos educados a valorar a classe de gênero que
pertencemos, se homem ou mulher, seguindo preceitos que foram traçados “mil
anos luz” atrás. (...) São as meninas para casar e os meninos para sustentar a
casa! Rosa quando mulher, azul quando homem. E tudo parece tão estagnado que
sequer percebemos, às vezes, que o mundo dá voltas...
O
conceito de gênero não
se refere exatamente aos homens e mulheres, mas as relações entre eles. Esse subentende
uma série de processos culturais, sociais, políticos e morais, que atuam como
atribuidores de valores a essas relações. Tudo arquitetonicamente prático se,
frequentemente, não fosse designado à mulher uma posição subalterna.
O machismo, intrínseco a conjuntura
atual, esconde uma lógica que, por vezes, não nos damos conta. Digo: as
atitudes de discriminação contra a mulher e a não aceitação da igualdade de
direitos entre os gêneros são passadas de geração a geração como se assim
houvesse de ser feito. Somos alienados a concordar com uma política que
desconsidera o fato das pessoas serem iguais entre si, por não levar em conta a
classificação majoritária dessas, que é a de ser humano.
(...) E defendemos que chorar não é
coisa de homem, porque a mulher é o sexo frágil; que as roupas são melhor
lavadas ou as comidas mais saborosas caso passadas pelas mãos femininas, mas
trocar lâmpadas e bater pregos são trabalhos de macho; as mães trocam fraldas e
têm seis meses de licença maternidade, enquanto os pais dão broncas e se
ausentam apenas cinco dias do trabalho.
Você já parou para pensar que, talvez,
se as garotas em suas infâncias brincassem sem culpa com carrinhos evitaríamos
essas anedotas de que “mulher no volante: perigo constante”? Não quero validar
teorias ou afirmar hegemonia de minha opinião. Ambiciono tão-somente que reflitamos
que a fronteira existente entre pessoas que se comportam como homens, ou como
mulheres, é mesmo que a linha do Equador: imaginária!
Os meninos podem, sim, brincar de
bonecas! Afinal, as bonecas, além de entreter, não servem para que as meninas
fantasiem a reprodução, o cuidado e o conceito de família? Homens também
reproduzem, cuidam e constroem família. E se sua esposa está grávida: parabéns,
você está grávido! Soa estranho, mas esta palavra existe no dicionário.
É isso! Torçamos pelas mulheres no
futebol sem preconceito e não questionemos a orientação sexual dos
cabeleireiros por sua profissão. Alguns homens varrem muito bem a casa e há
excelentes engenheiras por aí. Misturemo-nos neste caldeirão de iguais que se
dizem diferentes! A ideologia feminista, ao contrário da machista, não defende
que as mulheres sejam superiores, mas que tenhamos todos, homens e mulheres,
direitos iguais.
O fim da desigualdade de gênero é uma
das chaves para o desenvolvimento. Abramos este baú! Para isto, fica a
recomendação de Charlie Chan: “Mente humana, como pára-quedas: funciona melhor
aberta.”
Março de 2011
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O que eu te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa. (Clarice Lispector)